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A doença cardíaca pode afetar quem leva um estilo de vida saudável

Qualquer desconforto que possa ser associado aos problemas coronários deve ser investigado

Veja abaixo um relato da jornalista Jane E. Brody do New York Times, sobre os problemas cardíacos enfrentados pelo irmão, evidenciando a importância que devemos dar aos cuidados do coração.

Esta é a história da cirurgia de revascularização do miocárdio do meu irmão, e contém três alertas importantes:

1. Não ache que, suas artérias coronárias estão em ótimas condições porque seus “números” estão bons, porque está tomando os remédios para mantê-los assim, por estar em boa forma física, fazer esportes e ter uma vida saudável em termos cardíacos.

2. Não ignore nem menospreze sintomas que podem ser de desconforto coronário imaginando que sejam de dor muscular, estresse ou azia.

3. Caso precise de uma cirurgia cardíaca para reparar um problema do qual não tinha conhecimento, certifique-se de escolher um profissional de primeira, que use as técnicas mais modernas e eficazes e que opere em um hospital com excelente unidade de tratamento coronariano.

Meu irmão, Jeffrey Brody, tem 73 anos e é advogado. Compartilhamos um histórico familiar de doença cardíaca na meia-idade: nosso pai, nosso avô paterno e um tio-avô tiveram ataques cardíacos após os 50 anos e todos morreram de doença coronária até os 71.

Jeff se cuidava – quer dizer, até certo ponto. É magro, faz atividade física e toma medicação para ajudar a manter a pressão e o colesterol em níveis normais.

O que deveria ter feito e não fez era descobrir a causa do desconforto que sentia no tórax, em episódios que chegavam a durar um mês; tampouco percebeu que estava ficando sem fôlego após um mínimo esforço. Como o primeiro sintoma persistia e o segundo já se fazia notar por outras pessoas, depois de uns seis meses ele finalmente consultou um médico: Douglas Heller, de Kingston, Nova York, que na mesma hora fez um eletrocardiograma.

O exame, feito em repouso, não mostrou anormalidades. “Mas, baseado nos seus sintomas, é bom fazer um teste ergométrico”, Heller aconselhou. E encaminhou Jeff a um cardiologista em Kingston – o Dr. Ali Hammoud, que fez um ecocardiograma com ultrassom não invasivo, em vez de contraste radioativo, para avaliar a função cardíaca antes e depois de esforço em uma esteira ergométrica.

O resultado mostrou que ela estava levemente anormal em repouso e nitidamente anormal com exercício. Hammoud solicitou uma angiografia, que revelou bloqueio de 80 por cento na artéria coronária esquerda – a famosa “produtora de viúvas” –, além de um bloqueio em outra. Foi levado de ambulância ao Hospital Vassar Brothers, em Poughkeepsie, onde se encontrou com o Dr. Jason Sperling, cirurgião cardiovascular com credenciais excepcionais.

Hammoud e Sperling recomendaram uma cirurgia de revascularização do miocárdio em vez da solução bem mais simples, a de inserção de um stent, para abertura da artéria entupida.

– É verdade, poderia usar um stent. Ele funciona bem para alguns pacientes com bloqueios na artéria esquerda principal – explica Sperling. No entanto, sua abordagem cirúrgica, usando as artérias torácicas internas para as pontes de que Jeff precisava, estava associada a uma maior sobrevivência em longo prazo. – Deve ser uma solução para o resto da vida – completa.

Embora a maior parte dos cirurgiões cardíacos use veias para fazer as pontes que contornam os bloqueios arteriais, Sperling explicou que elas também podem vir a ficar entupidas; já as artérias torácicas parecem ser imunes ao acúmulo aterosclerótico. Por sua vez, os stents, mesmo nas versões mais modernas, com medicação, não duram para sempre.

Na maioria das cirurgias de ponte de safena, os ossos e músculos da parede torácica são separados para permitir acesso à anatomia cardiovascular. Quando as artérias da região são utilizadas como enxertos, podem ser coletadas pela mesma incisão; já as veias teriam de ser tiradas de outro lugar, geralmente das pernas. Nos dois casos, os trechos arteriais “emprestados” são costurados às artérias danificadas para criar “pontes” que contornam as obstruções.

Felizmente a cirurgia de Jeff foi um sucesso e, após um pós-operatório exemplar de quatro dias no Hospital Vassar Brothers, recebeu alta, com instruções de aumentar gradualmente a atividade física e não levantar nada com mais de dois quilos para que os ossos do peito calcificassem normalmente.

Embora nem sempre um problema na artéria coronária cause sintomas, não devem ser ignorados; ao contrário, devem ser descritos imediatamente ao médico. Entre eles estão: fadiga incomum, menor resistência durante a atividade física, falta de fôlego, dor no peito ou desconforto após exercício, tontura, palpitações, dor inexplicável no braço ou queixo e indigestão que não passa com antiácidos.

Quando meu irmão se consultou com Heller, o internista, ficou feliz porque o médico não disse apenas que estava tudo bem, já que o eletrocardiograma não mostrara nada anormal; em vez disso, encaminhou-o ao cardiologista, Hammoud, para novos exames.

– Quando uma pessoa de 73 anos em boa forma física, mas com histórico familiar de doença cardíaca, relata vários episódios de dor no peito após esforço, não dá para esperar – diz Heller.

Hammoud diz que a decisão de enviar Jeff para a cirurgia teve apoio dos cardiologistas responsáveis pela colocação do stent.

– Eles analisaram a angiografia e concordaram que a ponte de safena seria a melhor opção diante da severidade do bloqueio da artéria esquerda principal e do grau da doença, apesar do estado geral de boa saúde – explica Hammoud.

A artéria esquerda principal fornece sangue a dois terços do coração e, caso fique totalmente obstruída, o paciente geralmente morre se não tiver intervenção médica imediata. Quando existe um bloqueio de 80%, o fechamento completo pode acontecer a qualquer momento se um pequeno coágulo ou pedaço de placa preencher a abertura remanescente.

Mesmo assim, a cirurgia, ainda mais a cardíaca, não é fácil; por isso, é importante analisar os benefícios, riscos e questões de recuperação com o cirurgião e, se possível, o médico do paciente e seus familiares antes de se tomar uma decisão.

Entre os riscos cirúrgicos de curto prazo estão ataques cardíacos, AVCs, problemas renais e morte, que costumam ocorrer em pessoas que, ao contrário de Jeff, estejam em pior forma física. O índice de mortalidade é de aproximadamente um em 200.

Quando disseram a Jeff que a operação lhe daria mais 20 anos com um coração saudável, ele decidiu que valia a pena enfrentar três horas de cirurgia e o período de um mês a um mês e meio de pós-operatório, incluindo a proibição de dirigir.

E agora se dedica a uma dieta saudável sem adição de sal, muitos legumes, peixe e frango sem pele, quase nenhuma carne e gordura saturada. Em sua despensa não existem mais manteiga, queijo, sorvete e tortas e bolos prontos. Além disso, passou a consultar os ingredientes e informações nutricionais dos rótulos antes de comprar de qualquer alimento processado.

Duas semanas depois da cirurgia, Jeff já começou a trabalhar com os casos acumulados durante sua ausência – e não vê a hora de voltar à quadra de tênis, aos julgamentos e a carregar madeira para ajudar a aquecer a casa quando neva.

* do New York Times

 

Dr. Leonardo Avila Lins
Dr. Leonardo Avila Lins
Médico carioca com mais de 30 anos de experiência em consultas nas especialidades de Cardiologia, Clínica Médica, Terapia Intensiva e Nutrologia.

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